quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

EMMANOEL BEZERRA DOS SANTOS.

                                                            Indíce
Era uma vez um menino, filho de pescadores de Caiçara do Norte (São Bento do Norte), que, quando rapaz, veio para Natal e foi residir na Casa do Estudante, para continuar seus estudos no Atheneu. Participou da política estudantil secundarista e ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Tem-se claro um exemplo de luta e de heroísmo, vivido, corajosamente, por um jovem que desafiou, nos mais ásperos tempos, os bárbaros torturadores, impostores de uma "ordem" que se implantou pela força e dela fez seu trágico e danoso ideário. Foi morto, segundo noticias que se tem, em 1973, quando viajava para o Chile, mais exatamente na fronteira do Brasil com a Argentina.

DADOS PESSOAIS
Nasceu em 17 de junho de 1947 na praia de Caiçara, município de São Bento do Norte, Rio Grande do Norte, filho de Luis Elias dos Santos, pescador e Joana Elias Bezerra, florista.
ATIVIDADES
Estudou na Escola Isolada São Bento do Norte, onde fez o curso primário. Em 1961 transfere-se para Natal, passando a residir na Casa do estadante e a estudar no Colégio Estadual do Atheneu Norteriograndense. Quando cursava a 3a. série do curso ginasial, Emmanuel, juntamente com outros colegas, funda o jornal O Realista, voltado para a denúncia política das misérias da nossa sociedade. Logo em seguida, já na época da ditadura militar, Emmanuel cria "O Jornal do Povo", publicação libertária com correspondentes em vários municípios do Estado. No Atheneu estuda até o 1o. ano clássico, 1965. Em 1966 fica doente e perde o ano letivo, recuperando-se imediatamente com o supletivo (art.99) e presta exame vestibular, ingressando na Faculdade de Sociologia da Fundação José Augusto em 1967. Neste ano é eleito delegado ao XIX Congresso da UNE em São Paulo. Também é eleito presidente da Casa do Estudante, onde realiza uma administração marcada pelo dinamismo, ousadia e eficiência. A Casa do Estudante é transformada em uma forte trincheira de luta do movimento estudantil (secundaristas e universitários) de Natal. Torna-se, em 1968, na gestão de Ivaldo Caetano Monteiro, diretor do Diretório Central dos Estudantes da UFRN, desempenhando função de liderança no meio universitário. A partir de 1966, Emmanuel passa a integrar o Partido Comunista Brasileiro (PCB), sendo um dos principais articuladores e teóricos da Luta Interna no velho partido, dele se afastando em 1967 para incorporar-se no Partido Comunista Revolucionário (PCR).
Com a edição do Ato Institucional no. 5, Emmanuel é preso (dezembro de 1968), condenado cumprindo a pena até outubro de 1969 em quartéis do Exército, Distrito Policial e finalmente na Base Naval de Natal. Libertado, Emmanuel imerge na clandestinidade, indo atuar politicamente (já como dirigente nacional do seu partido) nos Estados de Pernambuco e Alagoas. Nesse período, realiza viagens ao Chile e Argentina em missão do partido, buscando aglutinar exilados brasileiros à luta em desenvolvimento no país. Além de militante político, Emmanuel era uma pessoa voltada para a arte e cultura, tendo participado dos movimentos artísticos desenrolados na capital Natal. Rabiscou seus primeiros poemas adolescentes ainda na sua longínqua Caiçara do Norte. Apesar das atribulações da vida clandestina, foi possível salvar alguns dos poemas de sua autoria.
CIRCUNSTÂNCIAS DA PRISÃO E MORTE
Emmanuel foi preso no dia 04 de setembro de 1973, às 08:30 horas no Largo da Moema, São Paulo, quando regressava de viagem ao exterior. Conduzido para o DOI-CODI do II Exército, onde passou a ser torturado brutalmente até a morte, junto com o seu companheiro Manoel Lisboa de Moura, que havia sido aprisionado desde o dia 17 de agosto em Recife. A necrópsia foi realizada pelo famigerado legista Harry Shibata, o qual deve ter assinado o laudo sem ter examinado o cadáver; não constatou as inúmeras marcas de torturas no corpo de Emmanuel.
Em fotografia recuperada pelas entidades de direitos humanos, fica evidenciada a violência sofrida por Emmanuel: seu olho esquerdo está visivelmente inchado, seus lábios também estão intumescidos, sua testa apresenta ferimentos, a base do seu nariz está quebrada, seu lábio inferior está cortado e em volta do seu pescoço desenha-se um colar de morte, como se fora feito a fogo. Foi sepultado, ao lado de Manuel Lisboa, no cemitério de Campo Grande, como indigente.
SITUAÇAO ATUAL
Em 13 de março de 1992 seus restos mortais foram exumados, periciados e identificados pela equipe de legistas da UNICAMP. Trasladados para Natal em julho de 1992, os desspojos seguiram em cortejo para São Bento do Norte e em meio a grande comoção da comunidade local, foram enterrados no cemitério da cidade. Emmanuel recebeu diversas homenagens do povo do Rio Grande do Norte: a Escola Isolada de São Bento do Norte, tem hoje o seu nome; o Grêmio Estudantil da Escola Estadual João XXIII, também é homenageado, e é nome de rua no bairro de Pitimbu, em Natal. Após a entrada em vigor da Lei no. 9140\ 95, os familiares de Emmanuel obtiveram o reconhecimento da responsabilidade da União na sua morte, fazendo jus a respectiva indenização.

Às gerações futuras
Eu vos contemplo
Da face oculta das coisas.
Meus desejos são inconclusos,
Minhas noites sem remorsos.
Eu vos contemplo,
Pelas grades insensíveis.
Meu sonho,
É uma grande rosa.
Minha poesia,
Luta.
Eu vos contemplo
Da virtual extremidade.
Minha vida (pela vossa).
Meu amor,
Vos liberta.
Eu vos contemplo
Da própria contingência.
Mas minha força
É imbatível
Porque estais
À espera.
Eu vos contemplo
Pelo fogo da batalha.
Meus soldados
Não se rendem.
O grande dia
Chegará.
Eu vos contemplo
Gerações futuras,
Herdeiros da paz e do trabalho.
As grades esmaecem
Ante meu contemplar.
                              Emmanuel Bezerra

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